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O homem mais sexy do mundo segundo a Revista People.

09 setembro 2006

O homem que jogou a bomba

Todo dia aquele pensamento aparecia no exato momento em que saía para a rua. Algo estava errado no modo como ele sentia, via, encarava o mundo. Dentro de casa era um refúgio, uma solidão, apenas momentos de silêncio, e assim, de sinceridade. Mas no momento em que via o mundo girando, se perdia. Não sabia o que deveria sentir, não sabe o que deveria fazer, o que deveria pensar. Muitos tentavam dizer a ele como ser e agir, mas ele não mais dava crédito. Já não era mais feliz. Foram bons os anos em que foi feliz apenas com o orgulho próprio por seu trabalho. Foram poucos os meses em que foi feliz apenas correspondendo ao que lhe pediam.
Esses foram aqueles primeiros meses após o fim da guerra. Sua missão solitária e bem-sucedida, foi chamada de heróica. E assim ele acreditou por algum tempo. Veterano do exército, exímio em suas capacidades técnicas, cego e determinado em sua obediência hierárquica. Cumpriu sua missão, soltou uma bomba de milhões de dólares, no principal centro urbano, capital política e estratégica do inimigo e ainda consegui volta a salvo. Depois de matar dois milhões de vidas, conseguiu salvar a sua. Um herói. Um único homem acabara com a guerra.
Voltou para casa apenas com o sentimento do dever cumprido, mas foi recebido como ídolo e exemplo. Recebeu homenagens, festas e prêmios. Recebeu flashes, perguntas e galanteios. Recebeu jornalistas, fãs e declarações. Recebeu tanto que se assustou. Nunca foi um homem de vaidades. Ficava feliz do reconhecimento à sua carreira, mas esse sendo seu único orgulho, tratou de o mais rápido possível voltar ao que fazia mais sentido, sua carreira. Cargo de prestígio e pouco trabalho, pediu que fosse fora de seu país. Nas homenagens, queria as medalhas, não as festas. Queria a saudação do presidente, não o seu discurso inteiro. Então passaram-se os meses de fama e vieram os anos de orgulho.
Mais dez anos trabalhou com dedicação e compromisso ao seu exército. Não precisava mais agir como lhe pediam, tinha a felicidade da pessoa realizada. Satisfeito com sua performance durante a vida que lhe foi oferecida. Os que eram próximos admiravam seus feitos e sua conduta. Sua mulher lhe queria bem. Seu filho o idolatrava, virou diplomata e morava em um longínquo país. Mas tudo bem, tinha orgulho dele e da imagem e dos ensinamentos que lhe passara. Nesses anos foi genuinamente feliz e não havia dúvidas em sua vida. Então se aposentou. E a rotina com alguém que amava foi minando suas ilusões.
Vivia numa boa casa, com sua mulher, numa vizinhança tranqüila, onde todos sabiam de seu passado heróico e o respeitavam por isso, mas não mais do que respeitavam qualquer outro vizinho gentil e honesto. Passavam muito tempo dentro de casa, convivendo, conversando, observando e amando sua mulher. Não foi nada do que ela disse especifica ou diretamente, nem mesmo insinuara ou nenhuma postura diante de assuntos próximos. Mas observando sua mulher e ele começou a se arrepender de ter tirado cada uma das milhões de vidas cumprindo sua missão.
Não chegava nem a contestar, julgar justos ou não os motivos. Na verdade, nem passava pela sua cabeça os motivos que levaram seu exército e sua nação e mandá-lo para aquela missão e acabar com a guerra. Não se preocupava em imaginar porque tantas pessoas, muitas pessoas boas e sensatas, tinham orgulho e aprovavam o que ela havia feito, do modo que ele havia feito. Não importavam os motivos, ele agora sentia o peso de ter acabado com a historia de tantas pessoas.
Sua mulher foi a única pessoa que o amou do modo mais puro e profundo. Mesmo seu filho o tinha mais como uma imagem do que como uma pessoa. Sua mulher o conhecia bem, gostava dele pelo modo como agia, como sentia e como era. Mas ela nunca o considerou errado como ele mesmo se considerava agora. Ela nunca o julgou como ele mesmo se julgava agora. Por isso não entendia porque olhava sua mulher e via arrependimento. Isso o incomodou por um tempo. Até o dia em que não tinha mais dúvidas que estava profundamente arrependido de ter assassinado milhões de pessoas. Quando assumiu isso, passou a ter em sua casa então o único lugar do mundo onde tinha paz. Lá havia alguém que o admirava pelo que ele era antes de jogar a bomba. E só. Era abrir a porta e não sabia mais como lidar com o mundo.
Tudo o que os outros conheciam dele era fruto de algo que ele não queria ter feito. Saia de casa e entrava num mundo de névoas e pessoas sem rosto. Ouvia e repetia frases sem sentido, sem motivo ou sinceridade. Não havia intenção alguma em qualquer coisa que fazia. Não havia mais vontade nas obrigações do dia-a-dia. Fazia o que sabia que tinha que fazer para manter sua casa funcionando como sempre e nada mais. Era gentil com as pessoas, para que elas continuassem sendo gentis. Não queria problemas, não queria novidades, não queria aprofundar relações, nem boas ou más surpresas. Queria apenas voltar para casa. O que faz um homem quando percebe que não teve vida? Não se considerava uma mentira, era pior que isso. Se considerava uma verdade dos outros. Ou seja, não existia. Não que ela tenha fingido ser algo que não era. Ele simplesmente foi algo que não era ele. Sua vida parou no momento em que jogou a bomba e então o mundo roubou sua vida. E agora que através de sua mulher ele a havia achado de novo, ele não tinha mais a energia para viver. Ao menos não fora de sua casa. Como tantos outros que vivem no cotidiano do mundo, era homem de verdade apenas dentro sua casa, quando o amor sincero de uma mulher o fazia como tal. Mas percebia e assumia isso apenas agora, já no fim da vida. Era um homem de caráter e que conhecia as armadilhas óbvias da vida. Fugiu da vaidade, da fama, da bajulação, do seu próprio ego. Mas ao querer afirmar seu caráter, confundiu o quer era o certo para todos com o que ele era de fato. Correspondeu a todos, inclusive à sua mulher, mas não ao homem que ela amava.

10 Comments:

Blogger Lubi said...

Acho que é assim na vida de todos. Naquela fase antes de descobrirmos o que somos e/ou como somos, somos o que desejam que sejamos, fazemos o que desejam que façamos. E essa descoberta pode levar um dia ou a vida inteira, pode ser inúmeras.

Isso daria uma longa conversa.

=/
Beijo.
:*

14 setembro, 2006 10:56  
Blogger Lubi said...

Não, não. Gostei, sim.
É que estou meio-assim como descrevi no comentário anterior.

14 setembro, 2006 16:50  
Blogger Lubi said...

Rodrigo, esse é meu estilo. Eu não sei narrar e quando narro é sem perceber.
Você narra bem. Mas, não é por isso que todos tem que ter a mesma capacidade. Eu jamais conseguiria escrever um texto como o "O homem que sabia que iria ganhar na loteria" assim como você não saberia escrever um como o "Dois monólogos na noite". Ou saberia?
Acho que não mudaria saber que ela se chamava Maria, e ele José. A história é aquela, não mudaria. O interessante para mim é saber que as pessoas leêm e inventam os porquês, os finais. Isso é o que me interessa, saber que não cuspi um texto, que só o coloquei na mente de alguém.

Que viessem eternas reticências. O que não me apetece é a grosseria.

http://carpinejar.blogger.com.br/2006_08_01_archive.html#38958592

18 setembro, 2006 14:43  
Blogger GIOVANNA said...

gostei

22 setembro, 2006 15:06  
Blogger GIOVANNA said...

Aí vai um menos laconico então:
1.Em alguma parte do seu texto,deixa escapar "consegui" e não conseguiu salvar sua vida? Seria a personagem um pouco de você?
2.Segundo Nietzsche "estamos fadados à nossa liberdade". É muito mais fácil viver segundo as regras dos outros do que sermos nós mesmos.Existem muitos "homens-bomba" por aí.
3.Gostei!!!

23 setembro, 2006 09:39  
Blogger Lubi said...

Toma vergonha na sua cara e atualiza seu blog! Vai fazer quase um mês que você não posta nada!

Beijo.

03 outubro, 2006 09:42  
Blogger Sagá said...

No fim das contas aquele velho clichê de que "deve-se ter paz quando coloca-se a cabeça no travesseiro" transmite um pouco da essência do homem que jogou a bomba...

Beijos!!!

03 outubro, 2006 09:57  
Blogger Ally Bradshaw said...

Oi Rodrigooo! Passei ´pra deixar um beijo e um oi!
Adorei conheçe-lo!

06 outubro, 2006 12:44  
Blogger Lubi said...

Passa lá quando puder. E que o "quando puder" seja LOGO!
Hahaha.
Vc está me devendo os comentários dos posts antigos que vc ia escrever e deu erro!

Beijo.

06 outubro, 2006 16:41  
Blogger Mariana said...

Profundo!

E triste de novo!

Espero nao chegar no nivel desse brother! hahahha

Beijo beijo!
E vou continuar a busca por um conto feliz! =)))

23 maio, 2008 12:33  

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