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O homem mais sexy do mundo segundo a Revista People.

23 agosto 2006

O homem que sabia que ia ganhar na loteria

Nasceu, cresceu, estudou e descobriu que ganharia na loteria. Foi num dia qualquer que descobriu. “Um dia vou ganhar na loteria e preciso me preparar para isso”. E começou sua vida de preparação.
Cada passo dado era pensado considerando o que o prepararia melhor para usar o dinheiro que ele ia ganhar. A descoberta foi logo antes do vestibular, o que foi muito bom, pois ele estava na dúvida entre medicina e educação física. Então escolheu Economia, afinal precisava entender de finanças para saber o que fazer com tanto dinheiro que teria que cuidar. A faculdade passou normalmente, sabia que não seria ali que ganharia, sabia que teria que estar mais maduro. Fez estágio em bancos, financeiras, fundos de investimentos e até em uma casa de câmbio, para se familiarizar com Euros e Dólares. Era muito dinheiro para ficar tudo em Real.
Gastava bem, não economizava, vivia bem. Sabia que não precisava guardar dinheiro para o futuro. Logo se formou e percebeu: a partir de agora, poderia ganhar na loteria a qualquer momento, então entrou num estado de alerta permanente. Ficou com o emprego no fundo de investimento. Lugar ideal para quem um dia teria muito dinheiro.
Ele já tinha toda uma rotina para jogar. Só jogava quando o prêmio acumulasse para mais de dez milhões. Não valia a pena gastar seu destino em um milhão ou dois. Quando o prêmio chegava a trinta, quarenta milhões, ficava ansioso. Imagina. Além do que ele já havia feito todos os planos para o seu dinheiro, e se fosse menos de dez milhões não daria certo.
Não era ganancioso, tinha apenas aceito o destino de que ganharia na loteria. Assim seus planos eram bem autruistas. Para si, guardaria dois milhões. Investiria em fundo conservador, de renda fixa. E viveria dessa renda. A trataria como um salário, não poderia gastar além do que esses vinte mil por mês pudessem pagar. Viveria bem, seria rico, mas não poderia gastar um milhão em um Ferrari, por exemplo, mesmo que tivesse esse um milhão sobrando. Com essas recomendações também daria dois milhões aos pais e dois à irmã. Ainda decidiu, como ninguém é de ferro, que a família toda teria um milhão para dividir em luxos. Com isso teria sete milhões para sustentar ele e a família pela vida toda. E todo o resto ele doaria para instituições filantrópicas, ONGs, fundações. Por isso não queria ganhar menos de dez milhões. Doar três milhões era o mínimo que considera viável em seus planos. Já tinha até pensado em algumas das entidades que ajudaria. Não queria ajudar muitas entidades, dando pouco para cada uma. Escolheria duas, três, não muito mais e doaria milhões para cada. Escolheu algumas com bons projetos, grandes, significativas e eficientes. Talvez não doasse tudo de cara, guardasse por cinco, dez, trinta anos até achar que era a hora de doar. Talvez fundasse ele mesmo uma instituição com bons projetos. Talvez até investisse esse dinheiro, comprasse uma boa idéia ou uma nova empresa com boas perspectivas. Mas todo lucro que fosse gerado fora dos sete milhões iniciais, continuaria sendo para ser doado. Já havia até decidido por guardar o dinheiro em contas separadas. Aliás, seu plano incluía três contas. Uma com o dinheiro das doações, que ele preferia chamar de “Investimento Social”, outra com os dois milhões que lhe gerariam renda, que seriam intocáveis e outra que receberia a renda-salário, que seria a conta que ele movimentaria no dia-a-dia. Estava tudo planejado.
A todos tratava com a confiança e segurança de quem não tem nada a temer na vida. Era bom com todos, voluntarioso nos empréstimos, pois sabia que aquele dinheiro não lhe faria falta a longo prazo, mesmo que fizesse na hora. Por conta disso vivia sem nenhum luxo e pouco conforto, bem menos do que poderia se dar direito com o salário que recebia. Todo o dinheiro que recebia ficava entre parentes, amigos, vizinhos, conhecidos de conhecidos de parentes distantes. Muitos empréstimos a fundo perdido, doações, presentes, ajudas. Assim atraiu alguns parasitas, mas não se importava. Havia um primo do interior que se mudou para a capital, praticamente às custas dele. Pedia dinheiro tão freqüente e regularmente que ele logo decidiu pagar ele mesmo o aluguel, diretamente com o proprietário. Fora empréstimos um pouco maiores de tempos em tempos, que o primo chamava de investimentos, pois vivia de ter idéias mirabolantes de como ganhar dinheiro pro resto da vida, só precisando de um pequeno capital para começar. O primo não era má pessoa, mas era preguiçoso, metido a esperto e um tanto folgado. Por isso sempre pensava que teria que dar um salário para o primo, pura e simplesmente pela praticidade e conveniência. Mas isso não incomodava, sempre soube lidar bem com as pessoas. Pessoas de bem ou de mal. Tinha muita consciência e planejamento do uso do seu dinheiro. Não era ingênuo ou burro, sabia reconhecer trambiqueiros e tinha experiência em lidar com dinheiro, transferências, contratos, procurações e bancos. Sabia que o dinheiro que ganharia teria exatamente o destino que planejara.
Pensava muito também na sua vida amorosa. Ele esperava conhecer a mulher da sua vida antes de ganhar na loteria. Não só pelo receio de que algum mulher o iludisse de olho no dinheiro, mas também, e principalmente, porque sonhava no dia em que diria para a mulher, acostumada com sua vida de classe média, que havia ganho na loteria. De surpresa, a levaria para jantar no restaurante mais caro, com limusine, jóias e luxos. Uma noite de luxo, uma noite de mais de cinco mil reais. Para só no fim da noite dizer porque queria e podia gastar tanto. Sonhava com o dinheiro e como ele faria feliz as pessoas à sua volta.
Assim vivia bem. Não tinha dinheiro, não tinha grandes realizações, mas era tranqüilo, seguro e feliz. Anos passaram e a certeza não diminuía. Fez boa carreira, sabia muito bem aplicar grandes somas de dinheiro e virou queridinho de bilionários que eram clientes do fundo que trabalhava, assim virou queridinho do chefe também. Subiu bastante na empresa, multiplicou seu salário e continuava pobre. Vivia no mesmo apartamento pequeno, comia nos mesmos restaurantes por quilo, freqüentava os mesmo programas culturais gratuitos. A única diferença era que agora ajudava muito mais gente, a única diferença era que agora fazia diferença na vida de muito mais gente.
Casou, teve filhos, poucos. Esperava o prêmio da loteria para poder sustentar todos que pretendia ter. Nunca contou à mulher que iria ganhar na loteria. Ainda sonhava com a noite especial em que contaria isso à ela. Assim, de ano em ano, a aposentadoria chegou. Finalmente entendera, a aposentadoria era o momento ideal para ganhar na loteria. Maduro, grande conhecimento acumulado e tempo livre. Talvez por perceber isso tenha aposentado tão cedo, logo na primeira oportunidade. Continuava jogando apenas nos prêmios acumulados, mas, já estável, com os pais já falecidos, mudou seus planos. Agora noventa por cento do dinheiro seria para a conta do investimento social. Talvez até cem porcento, afinal a aposentadoria lhe era suficiente, em seu tímido modo de vida.
Quando chegava aos oitenta anos, sua certeza no prêmio da loteria mais firme do que nunca, adoeceu. Uma doença no sangue, sem cura. Alguns meses viveu feliz, mas com uma pequena lamentação do azar que teve, morrendo antes de ganhar na loteria.

22 Comments:

Blogger Lubi said...

Rodrigo, é visível o amadurecimento de sua escrita. Quanto mais recente o texto, mais eu gosto.
E estou gostando também de ter você "avaliando" o que eu escrevo. Hahaha. Mesmo você não merecendo taaaaaanto. Hahaha. Acho que tenho pensado mais na sensação que quero transmitir. Embora, a evolução seja uma gangorra.

A primeira frase desse texto já me fez rir: "Nasceu, cresceu, estudou e descobriu que ganharia na loteria. Foi num dia qualquer que descobriu." Quem dera a descoberta do nosso destino fosse tão simples assim, né?! Poderíamos viver pelo objetivo traçado. Que pena mudarmos de opinião, errarmos a vida. Ou, não.
Pensei que teria outro final. Achei que ele morreria e no mesmo dia a família descobriria que ele havia ganhado na loteria. Logo, o final me surpreendeu.
:0
E surpresas são sempre bem vindas, né?!
Bom, te admiro bastante.
Beijo.

23 agosto, 2006 17:39  
Blogger Rodrigo, o Soneca, Pontes said...

Na hora de escrever, fiquei na dúvida se parava onde parei, ou colocava esse último parágrafo abaixo.
Primeiro publiquei COM o parágrafo, mas após repensar e opinião da Lubi, resolvi tirar.
Segue abaixo o tal parágrafo, para quem quiser comentar se ponho ou tiro:

"...Alguns meses viveu feliz, mas com uma pequena lamentação do azar que teve, morrendo antes de ganhar na loteria.

Dois dias depois do seu falecimento, seu primo do interior ganhou na loteria. Trinta e nove milhões de um prêmio acumulado. Durou cinco anos o prêmio. Maus negócios, gastança, exageros e alguns larápios, lhe renderam uma dívida acumulada. Um ano após a falência, sozinho e alcoólatra, morreu de cirrose."

24 agosto, 2006 11:12  
Blogger Lubi said...

=P

Reli e ficou melhor sem.

=]

24 agosto, 2006 11:21  
Blogger Lubi said...

=/
Sei que já passei por aqui hoje, mas como estou na minha viagem semanal, não poderia te deixar de fora.
Boa tarde,
beijo.
:*

24 agosto, 2006 14:04  
Anonymous fiori voniere said...

Vc é um ser bizarro! gostei muito do texto. Estou voltando pra SP, consegui emprego em Cinema, vou ser secretaria da Anna Muylaert, longa metragem! Fora essa preciso te contar as outras novidades.
Beijo...

28 agosto, 2006 11:04  
Blogger A czarina das quinquilharias said...

adorei!!
é o texto seu que mais gosto até agora sem a menor sombra de dúvida.
e concordo com miss lubi, bem melhor sem o parágrafo último.
beijos maravilhados

30 agosto, 2006 13:51  
Blogger A czarina das quinquilharias said...

eu imaginei que fosse isso hehehe
mas estou juntando energias para prosear novamente, não se preocupe :)

31 agosto, 2006 13:32  
Blogger Lubi said...

Êeê!
Tem post lá na minha casa!
E... Se você espalhar "..." por lá, eu nem te conto o que vou fazer com vc, seu palhaço sem graça!!!

Admiro-te.
Beijo.

05 setembro, 2006 17:34  
Blogger Luciano said...

Muy bom, palhaço! Tem cara de Italo Calvino!

09 novembro, 2006 10:29  
Blogger Sra.Vedder said...

Não foi preciso ele ganhar na loteria para ajudar as pessoas..percebe q isso acontece todos os dias?? agente não precisa ter muito para ajudar o próximo!! Basta fazer o bem sem ohar a quem!!
Rodrigo parabéns, cada vez que leio seus blogs mais quero destrincha-lo!!

27 junho, 2008 12:22  
Anonymous Anônimo said...

Rapá, não te conheço e parei aqui por acaso, numa época que tenho procurado fórmulas mirabolantes de acertar na loteria por saber que ganharei em algum dia... hehehe! Um dos melhores textos que já li, e sou bem chato para analisar... parabéns!

23 março, 2010 21:50  
Blogger Rodrigo, o Soneca, Pontes said...

Rapá anônimo, obrigado!! E o google acaba sempre trazendo alguém aqui! hahaha
Obrigado e boa sorte com a loteria

24 março, 2010 10:11  
Anonymous Anônimo said...

Parabéns.
Nada como começar este comentário, com esta palavra, para definir que você conseguiu escrever uma parte da vida de muitas pessoas com sonhos talvez inatingíveis.
Fica com DEUS e sucesso na sua vida..

22 agosto, 2010 08:31  
Anonymous Anônimo said...

Ganhar na loteria será sempre uma surpresa para todos os que jogam porque se deixar de ser perde a graça, eu não ganhei muito dinheiro, mas para mim já foi uma grande surpresa fazer a quina na mega-sena, se tivéssemos tanta certeza perderia a graça que tem assim como quase tudo na vida...não sabemos com certeza absoluta e só quem sabe é Deus!! Parabéns pelo belo texto criado...Enoé Eliane

19 novembro, 2010 15:18  
Anonymous Fernando H Pessoa said...

Todos nós de uma certa forma ja ganhamos na loteria, este seu belo texto nos ensina que o maior premio que um ser Humano pode ganhar, vem de Deus que é a vida, o seu personagem foi marcante no que disrespeito a generosidade, de fato ele ajudou muitas pessoas, e seus penssamentos positivos (sua confiança) de que ganharia na loteria, fizeram muitas pessoas ganhar junto com ele...


Muito Bom o Texto Amigo, Voce esta de Parabéns, Abraaço!

20 novembro, 2010 00:51  
Anonymous Fernando H Pessoa said...

Eu sempre sonhei e sonho ate hoje, em ganhar algum "grande premio" na loteria, mais eu encaro que eu ja ganhei muitas veses na loteria, coisas que concerteza o dinheiro nao compraria, coisas sinceras, como o amor da minha familia, a minha namorada, que eu julgo ser um presente de Deus, entao akela parte do seu texto que diz, que o personagem fica imaginando a noite em que ele vai contar pra sua esposa que ganhou na loteria e que eles nao precisao mais viver na classe média, me tocou bastante, porque eu sempre jogo penssando na hora que eu irei chegar e falar pra ela...

APROVEITANDO O ESPAÇO MARAÍSE EU TE AMO MEU AMOOR...

20 novembro, 2010 00:57  
Anonymous thamy said...

eu eempre falo que um dia eu vou acerta na loteria e bigo com quem me recrimina,minha mae ate chegou a falar que é mais facil um raio de acerta 2 vez por ano que acerta na loteria, mas lendo este texto cai na real loteria quanto mais certeza se tem maiso o dinheiro nao vem, parabems que testo verdadeiro vc quase escreveu a minha vida gasto todos os meus trocados e nunca ganhei nada
obrigado vc é dez.Meu Deus to chorando....

13 janeiro, 2011 18:23  
Anonymous Anônimo said...

Rodrigo seu textoé bom,levemente
levemente embromalhão,criativo e
eloquente; Porem não desgaste sua
capacidade em produzir textos de
carater pessimista,se consultar seu eu interior e escultar sem medo ficara claro a voce que nada mais é
sua vida e tudo que faz resultado do
que pensa.
abraço e felicidades
Gianfranco Stabile

15 março, 2011 18:39  
Anonymous Anônimo said...

Poxaaaa, eu aqui procurando no Google, alguem q teria a certeza de q iria ganhar na loteria... me deparei lendo o seu texto...me fixei tanto...mas o final huauhau sacanagem...talvez na proxima vida dele, ele ganhe na Lot... neh? hehehe

Bjosss da Suiça

;-) te cuida...

Ps: Eu vou ganhar amanhã dia 13/08/2011 na Loteria... pq acredito...depois passo aki p anunciar...

(Read: http://www.thesecret.tv/)

12 agosto, 2011 06:29  
Anonymous loteria said...

realmente muito boa historia

10 julho, 2012 13:20  
Anonymous Anônimo said...

Bem esse texto mostra exatamente o espelho sem luz. Pois onde há luz existe vida e sucesso, todos que estamos vivos já somos ganhadores da loteria. A vida é o maior prêmio que existe.
Quânticamente sou como a água, estou em tudo e entrelaçado a tudo, permaneço o criado em mim, Jesus.

06 outubro, 2017 14:46  
Blogger Rogerio Dornela Caetano said...

Quando comecei a ler me identifiquei tanto. Detestei o final. Porq parece tanto q fui q escrevi isto pra mim mesmo. E estava indo tão bem. Exceto pelas doações e porq ele não ganha e a mulher q nao quero ter sou eu. Se fosse mais acertivo eu ia dizer q de alguma forma voltei no tempo e escrevi isto.

15 fevereiro, 2018 01:50  

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