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O homem mais sexy do mundo segundo a Revista People.

21 março 2006

A praça dos mendigos

A praça já estava ficando escura. Aquele momento do dia em que as pessoas começam a andar mais depressa e já não se consegue mais distinguir muito bem os rostos mais distantes. O mundo se fechava naquela praça suja perdida no meio dos prédios da cidade. Só se reconheciam dentro da praça os rostos de sempre e os de fora já não reparavam mais no que acontecia naquele mundo fechado. Guiavam-se pela intuição de desviar o caminho e evitar passar por aquele lugar escuro, sujo, perigoso, hostil. Era a praça dos mendigos, perto dos Bancos. Para o povo de fora, só interessava saber isso, que era a praça deles e bastava um pequeno desvio para que isso não afetasse suas vidas. Para os moradores da praça, só interessava saber isso, que era a praça deles e bastava escurecer para que ninguém soubesse mais o que se passava em suas vidas.
Nessa praça moravam regularmente nove pessoas. Uma mulher e oito homens, todos já velhos. Nenhum sabia que idade tinha, mas todos sabiam que estavam a tempo demais nas ruas. Poucos se lembravam da vida fora dali. Eles não mais distinguiam entre a semana passada e o ano passado. Era uma peculiaridade daquela praça. Os que moravam lá perdiam seu passado e seu futuro. Perdiam a memória e as expectativas. Os sonhos já haviam perdido faz tempo, mas aqueles moradores da praça não pensavam nem no dia seguinte. Tudo era o agora. A fome, o cansaço, as discussões. Não havia briga que passasse para o dia seguinte, não havia afinidade que remanescesse do dia anterior, não havia nada que durasse mais que um dia. Eles viviam infinitas vidas de um dia. Sem memória e sem expectativa, eles viviam nesse mundo particular, que se criava a cada escurecer e tinha intervalos quando sol levantava, tempo usado para buscar na rua e nos de fora, geralmente no lixo dos de fora, um meio de sobreviver mais um dia.
Começava então mais uma de suas diárias vidas, naquele momento em que o sol se escondia. Parece que aquele policial conhecia bastante dessa rotina. Ele chegou no exato momento em que deveria só haver rostos conhecidos dentro daquela praça. Passou alguns segundos olhando a todos, atentamente, como se buscasse algo. Eles, em contrapartida, olhavam inexpressivos para aquele homem de fora, de uniforme, de postura formal. Olhares de quem não entende, de quem não se importa, se interessa. Sem medos ou expectativas, sem ansiedade ou curiosidade. Apenas olhares de espera. Esperavam o policial dizer o que fazia ali, vendo seus rostos na escuridão.
"Ta na hora de sair. Acabou”, simples assim. Chegaram mais quatro policiais, um deles, mais velho, tinha uniforme diferente. Era o Capitão. Tomou a frente dos outros policias, que se posicionaram, como que ensaiado, em linha, cassetetes na mão ao lado da perna, olhavam para a praça, tentando olhar para todos os que estavam ali ao mesmo tempo. O Capitão agora falava.
"É isso mesmo. Acabou a festa, vão ter que cuidar das suas vidas fora daqui, essa praça vai ser fechada. Podem separar o que vocês têm e vão embora. Levem essas carroças e o que quiserem, mas o que ficar aqui vai virar entulho. Amanhã já vem o pessoal da prefeitura passar a grade e começar a quebrar. Eles vão mudar tudo aqui e vocês têm que sair. Têm que ir. Vamos, aproveitem que é cedo ainda e procurem outro lugar. E, se querem uma dica, achem um lugar mais sujo, sem tanta gente passando perto. Pra depois do rio tem um monte de terreno abandonado, tem até galpão lá. Lá vocês não são problema nosso. Mas aqui não ficam mais. Acabou”.
Os nove moradores da praça estavam lá. Quietos não esboçavam uma palavra, uma reação. Não havia nada que diziam em seus olhares. Apenas continuavam olhando para aquele homem que os mandava embora. O Capitão esperou alguns segundos, esperou algum movimento. Nada.
"Vocês não me ouviram não. Acabou. Aqui vocês não ficam mais, tão achando o que? A gente veio aqui com ordem de tirar vocês. E vamos fazer isso”.
Fez sinal e dois policiais foram em direção aos que estavam sentados mais na ponta, os outros dois avançaram e ficaram logo atrás da primeira dupla. Com o cassetete cutucavam e com a outra mão empurravam dos moradores da praça. Chutavam suas coisas no chão, suas pernas, mandavam eles se levantarem, irem embora.
Os moradores se levantam, não para irem embora, mas para recolherem de volta o que foi chutado. Andavam um pouco mais pra frente e sentavam de novo. Não tinham alguma atitude desafiante ou parecida, tampouco algum medo ou cuidado, não tinha algo de preocupado no olhar, não tinha reação alguma. Apenas juntavam suas coisas e voltavam a sentar, como fariam se fosse o vento a empurrar suas coisas.
"O que ta acontecendo?!", gritou o Capitão. Os policiais pararam, com um sinal eles voltaram para a sua linha ensaiada. "Vocês não entenderam o que eu disse? Vocês são surdos é? Burros? Mendigos imbecis. Cambada de vagabundo retardados são vocês. Escutem bem, eu vim aqui pra tirar vocês dessa praça. Não é o lugar de vocês, vão procurar um lugar sujo pra ficarem! A sociedade não quer ver um monte de sujo todo dia no caminho de volta pra casa. O sujeito que trabalha pra cuidar da sua família não quer ter que desviar de um mendigo fedendo que anda cambaleando na rua. Vocês vão ter que sair, entenderam? Entenderam?!”
O olhar direto, mas indiferente continuava.
“Vocês não podem ser tão burros assim? Não vão dizer nada?? Vocês querem ficar aqui? Fala então! Fala alguma coisa, maldição!”
Nenhuma reação.
“Olha, vou ter um pouco mais de calma com vocês. Se vocês fossem inteligentes não seriam mendigos. Vocês estão numa praça, com banquinhos para aposentados e casais e crianças sentarem. Não é uma praça largada, aqui é um lugar de gente que tem dinheiro. Não tão vendo quanto Banco tem aqui em volta? Quanto engravatado passa aqui? Não percebem que as pessoas desviam para não entrarem nessa praça?? É lugar público. Não é lugar pra vagabundo morar. Vocês gostam dessa vida fácil, né? Não trabalham, ficam catando lixo, pegando coisas que são dos outros. Moram de graça onde querem. Aposto que se te dessem trabalho ia largar e voltar pra essa vida. Aposto que já fizeram isso! Olha quanta organização de ajudar pobre tem por aí. Se quisessem mesmo sair dessa vida já teriam saído. Tem essas igrejas que dão comida, que dão uma cama pra dormir. As organizações que te dão um emprego. Vocês querem mesmo é ficar aqui. Por isso agora acabou isso. Vão reformar essa praça, deixar ela bonita, deixar ela pra quem paga imposto aproveitar, não pra vagabundo morar. Acabou. Tirem eles daqui”.
Os policiais saíram de sua linha ensaiada para um impulso furioso. Foram pegando os moradores pelos trapos que usavam, levantando, chutando para fora da praça. Jogavam as sacolas em cima deles, davam borrachada, bicavam. Eles foram saindo, devagar, foram indo, carregando o que podiam, para fora da praça. Os que catavam lixo saíram empurrando seus carrinhos. Mas ainda não viam medo, pressa ou sofrimento naqueles olhos que se desviavam da praça e se preocupavam apenas com o caminho que estavam seguindo.
Os policiais ficaram de guardas mais uns bons quarenta minutos ali. O Capitão foi embora na hora. Não tinha tempo para ficar, confiava nos seus comandados. Não tinha tempo para ter pena dos mendigos, não tinha tempo para pensar no que fizera. Precisava voltar para casa. Em casa não queria pensar em trabalho e já estava condicionado a ser feliz pela vida que tinha. No trabalho não podia pensar na vida e já estava condicionado a ser eficiente no que lhe mandavam. Não podia questionar, não tinha do que reclamar. Tinha obrigações no trabalho, tinha obrigações em casa. Era um homem condenado a não ter tempo de sofrer.
Depois que um carro de viatura estacionou em frente a um dos Bancos dali e ficou, os policias foram embora. Os moradores da praça também, não voltaram mais.
Seguiram quase juntos, quase sabendo para onde iam. Não falavam entre si, parecia que nem se conheciam. Pareciam andar na mesma cadência por puro acaso. Se um dos que puxavam sua carroça ficava para trás, ignoravam. Mas em algum tempo lá estava ele de volta, ao lado dos outros, sem receber nem um olhar, seguiam.
Por algumas horas andaram. As ruas já estavam mais vazias, mais escuras, os muros mais quebrados, mais pichados. Era hora de parar. Na saída de uma fábrica que parecia abandonada, em frente um portão fechado velho e enferrujado, com uma laje cobrindo até a calçada, os que estavam mais à frente encostaram. Os outros se juntaram. Cada um achou seu lugar, encostou suas coisas. Trocaram algumas palavras, nenhuma sobre o que ocorrera. Não parecia algo a ser comentado ou sequer notado. Não parecia nem que algo tivesse acontecido. Era encarado com a naturalidade e a resignação de um destino inevitável. Era como se o motivo que os expulsou de casa não importasse. Como se um terremoto engolisse suas casa e não tivessem o que fazer a não ser procurar outra e lamentar seria perder tempo. Tempo perdido na vida de um dia que levavam. Essa vida foi uma vida de mudança. Uma mudança imposta, sem espaço para argumentação. O fim dessa vida chegava e precisavam logo descansar. Confiavam que o sol levantaria de novo e lhes faria andar quilômetros na luz para buscar o que lhes sustentava. Não sofriam, não pensavam na dura vida, não percebiam que existiam outros caminhos, outras maneiras de se viver. Não tinham tempo para perder, para sofrer. Pensar e reagir também. Então de novo a noite cairia, rostos de fora não seriam mais vistos e uma nova vida começaria. Uma nova vida a cada dia. Condenados a não terem tempo de sofrer.

2 Comments:

Anonymous Wal said...

uau.
Comentar, analisar, tentar decifrar esse texto é quase um pecado.
And I'm a good girl ;).
Te digo que adorei. E ponto.
bjos

26 março, 2006 01:08  
Anonymous Fiori Voniere said...

ai ai Rodriguets! uma conhecidencia engraçada eh que tambem escrevi um post sobre mendigos. vai lá ver!

18 abril, 2006 17:29  

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