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O homem mais sexy do mundo segundo a Revista People.

23 abril 2006

Encontro no supermercado


Passava o dia inteiro empacotando as compras dos clientes. Ele tinha sido obrigado pela mãe e pela situação a achar algum emprego. Já tinha dezenove anos e a loja de ferragens onde trabalhava faliu. Precisava do dinheiro e ainda pretendia arranjar outro emprego para o fim da tarde ou para noite, vigia ou extra em alguma obra. Mas enquanto isso passava o dia inteiro no supermercado. Quando o movimento ficava tranqüilo ele ainda podia ajudar as donas de casa levando as compras até o carro e ganhar um trocado.
Numa dessas vezes, percebeu, já a meio caminho do carro, que ajudava uma moça muito triste. Uma moça bonita, elegante, aparentemente bem rica, de traços delicados, gestos tímidos, um olhar distante em olhos tristes. Não havia nenhuma lágrima, mas sim uma melancolia profunda. Não havia ânimo, vontade, ação ou reação. Algo que incomodou o rapaz, que o tocou.
A moça achou um trocado na bolsa e deu a ele, esboçando um “obrigado” que nunca de fato saiu de sua boca.
“Obrigado, dona”, disse automaticamente, “pode deixar que eu vou buscar rapidinho, espera um minuto!”, e saiu correndo de volta ao supermercado.
A moça não entendeu nada. Viu o rapaz do supermercado correndo, como se ela o tivesse mandado buscar alguma coisa e rápido.
Antonio voltou correndo com algo na mão. Era um quindim.
“Pronto, dona, o doce que você pediu e o troco”, deu algumas moedas que a moça pegou mais por reflexo do que por vontade.
“Doce? Que doce?”
O rapaz respondeu então, com um sorriso no rosto, um semblante de quem está ajudando alguém. Um sorriso cúmplice, generoso, conselheiro.
“Você me deu dois reais para buscar um quindim, lembra? Você até disse que quando era criança e estava triste por alguma coisa sua mãe saia e comprava um quindim pra você. E dizia ‘Eu te dou o quindim e depois você me dá um sorriso, combinado?”. Agora sempre que tá triste você come um quindim e acaba sorrindo, é inevitável.”
Foi inevitável.
“Pronto, agora já tem o sorriso, guarda ele pra você, pra sempre que precisar!”, e o rapaz correu de volta pro supermercado, sem olhar pra trás.
Voltou a empacotar para outras freguesas. Ele era assim, gostava de fazer as pessoas se sentirem bem. Seus sonhos de ser bombeiro, médico, psicólogo a vida levou embora, mas ele ainda vivia movido por essa vontade de que as pessoas ao seu redor ficassem bem. Tantos gestos generosos fazia que nem lembrava ou reparava mais neles. Sua vida era trabalhar e ajudar no sustento da mãe e dos irmãos menores.
Passaram alguns meses e continuava no supermercado. Mas agora só até o meio da tarde, depois ia trabalhar como faxineiro num grande prédio de escritórios. Chegavam no fim da tarde, limpavam as garagens, depois do horário comercial, quando todos iam embora, eles subiam, limpando, andar por andar, o prédio todo. Acabava por volta das onze horas. Chegava em casa depois da uma hora da manhã, para estar no supermercado às nove horas. Não tinha tempo livre, nem para pensar nas coisas boas que fazia pela sua vida.
Passaram meses de rotina, de gestos bons, de gestos automáticos, de pessoas cruzando a sua vida e deixando trocados. Na rotina, apareceram figuras recorrentes. Senhoras simpáticas, já quase amigas de conversas leves e cotidianas, donas de casas e domésticas da vizinhança. Entre esses rostos conhecidos estava a moça triste. Aparecia de tempos em tempos, mas nunca mais tão triste quanto a primeira vez. Mais altiva e observadora. Tanto que freqüentemente puxava alguma conversa passando o tempo.
“Qual o seu nome?”
“Antonio”, ele disse.
“Marília, prazer. Acho que vou vê-lo sempre aqui” e saiu sorrindo.
Marília passara os últimos meses fascinada, deslumbrada com a vida e com alguém em especial. Um homem mais jovem, diferente dos que freqüentavam seus ambientes sociais. Um empacotador de supermercado. Mal ousava comentar isso com alguém. Não por medo das reações preconceituosas ou jocosas que certamente viriam, principalmente de seus pais. Mas por vergonha de se sentir assim, frágil, diante de um estranho, e ainda tão mais jovem. Uma moça que se considerava tão madura, vivida, inteligente. Sábia. Sabia como ninguém dos jogos da sedução, conduzir e enrolar os que se interessavam por ela. E todos se interessavam por ela. Sabia ser bela, ser interessante. Nunca houve um homem que a deixasse sem reação. Agora um menino.
Passou os últimos meses se fazendo notar. Sempre com sua beleza discreta, fascinante mas ao mesmo tempo acessível. Nem sempre passava no caixa de Antonio. Mas quando em outros caixas, sempre arranjava um jeito de que fosse vista. Queria se fazer notar, mas que fosse o acaso a proporcionar os olhares se cruzando. Queria mostrar que apreciava o contato com o rapaz, mas sem demonstrar o interesse claro. Queria nutrir no Antonio o interesse por ela, como já fizera com tantos outros, para que, quando demonstrasse seu próprio interesse e tomasse a iniciativa de chamá-lo para sair, fosse um sonho dele se realizando. Queria ser especial.
Escolheu um dia bonito, com pouco movimento, para fazer uma compra especialmente grande. Passou no caixa do Antonio. Como esperado, o rapaz se ofereceu para levar suas compras até o carro. Evidentemente apreciando a companhia da bonita moça rica. Ele puxou assunto dessa vez. Via-se que queria a atenção de Marília.
“Que bom que o sorriso está durando tanto tempo, não?”
“Que sorriso?”, disse sorrindo.
“O sorriso que veio com o quindim que lhe trouxe. Você se lembra não?”
Marília se lembrava, claro. Lembrava a toda manhã até a hora de dormir. E não havia dia mais bonito e romântico para dizer isso a Antonio.
“Nunca me esquecerei do homem que me deu um sorriso”
Antonio sorriu resignado. Não apenas pelo amor que sempre tivera dentro dele e só agora entendia o que era, mas por uma alegria irradiante. Percebeu que toda sua vida, era por aquele momento.
Marília sorriu sincera. Não apenas pelo amor que sentia por aquele menino desde a primeira vez que o viu, mas por uma alegria irradiante. Percebeu que toda sua vida, era por aquele momento.
Marília se aproximou do rapaz, ficou a distância de um fôlego. E o beijou.
Antonio viu aquela moça chegando tão perto, a distância de um susto. E afastou.
Antonio agora entendera porque recebia tantos sorrisos do que era mais uma cliente.
“Desculpa, moça”
“Mas... “
Antonio deixou as sacolas no chão mesmo e foi embora. Voltou para o seu trabalho.
Marília fechou o porta-malas deixando as sacolas no chão mesmo. Depois daquele dia, nunca mais voltaria àquele mercado.
Marília vivia por aquele momento. O momento do beijo e o encontro dos sonhos românticos de dois apaixonados. Planejou por tantos meses, para que o momento fosse perfeito. Tinha feito ele gostar dela, era claro isso. O dia certo, as frases certas. Conduzira tudo de um modo que teria a mais bonita história de casamento que jamais sonhara. Passou tantos anos seduzindo e jogando com os homens que esqueceu que alguns deles tinham sentimentos próprios e não manipuláveis.
Antonio vivia por aquele momento. O momento do agradecimento e o encontro das almas de dois estranhos sem máscaras. Passou tantos anos ajudando as pessoas, que aprendeu a viver pelos momentos de gratidão. Era a certeza de ter ajudado a pessoa, o obrigado que vinha do coração de pessoas estranhas. Tinha ajudado aquela moça, tão sincera e despretensiosamente que esqueceu que as pessoas não estão acostumadas mais com isso. Que vivem tão entretidas entre paixões arrebatadoras e convivência social, que não estão mais acostumadas com o que há de fraterno no amor.
Marilia preparava-se para ligar o carro, quando viu Antonio correndo de volta do mercado. Antes de ir à janela do carro, Antonio abriu o porta-malas e guardou as compras. Então bateu no vidro, Marilia desceu a janela. Ela ainda esperou um beijo redentor até a hora em que viu o quindim.
“Tome, mas dessa vez esse sorriso é meu.“
Antonio saiu mais uma vez satisfeito com o momento de gratidão sincera, que era o que mais apreciava. Mas sentia que esse momento tinha sido mais especial que tantos outros. Encontrou uma mulher que jogava para ser sincera. Tinha esperança de vê-la novamente.
Marília dessa vez saiu decepcionada. Não esperava que um menino não caísse nos seus jogos. Ainda mais sendo a vez mais sincera com que se entregara a alguém. Encontrou um menino com sentimentos espontâneos. Tinha esperança de vê-lo novamente.

10 Comments:

Anonymous Wal said...

Ah, devia ter beijado.
Poxa vida...

03 maio, 2006 12:48  
Anonymous  said...

"Que puxa"! Estou estilo Charlie Brow (me refiro ao desenho), como se uma tristeza me tomasse assim como uma gripe, e vim aqui para sorrir... Queria uma bandeja cheia de quindins, na verdade era de brigadeiro (meu preferido)! :) Mas, acho que foi o contrário que aconteceu!
Lindo seu texto, mas não pra hj!

19 maio, 2006 11:46  
Blogger Rodrigo, o Soneca, Pontes said...

Fá... quem é você? Alguém que eu conheço?

Enfim, se quer um pouco de sorriso, leia esse: http://entresorrisos.blogspot.com/2005/08/o-palhao.html

Acho que vai te fazer bem.

sorrisos,

19 maio, 2006 11:51  
Anonymous da gaveta said...

uhm, a esperança é a última que morre, não?

22 maio, 2006 14:55  
Anonymous fiori voniere said...

oi rodrigo, vc é um daqueles quadros de palhaço chorrando que deixa as crianças com medo. gostei do texto, só acho que as relacoes de troca que este menino vive são tão superficiais, que não o permitem perceber que deve se preocupar mais com ele proprio.
beijão... saudades

24 maio, 2006 18:58  
Blogger A czarina das quinquilharias said...

bonito.
mas fiquei com um pouco de pena da moça, hehe.

26 maio, 2006 14:06  
Blogger A czarina das quinquilharias said...

é, eu tenho consciência que o texto lá não faz muito sentido. mas ele é assim mesmo, acho...

28 maio, 2006 20:19  
Blogger A czarina das quinquilharias said...

sim, sim...
teremos então um começo de fim desta história?

13 junho, 2006 19:12  
Blogger Lubi said...

E gestos simples vão montando a vida. Sorrisos. E aprendizados.
Deve ser isso eternamente.

Cinco minutos de conversa com você pra me fazer pensar. Bom, moço.

Beijo.

20 junho, 2006 20:56  
Anonymous Patt said...

meu deus...
Rodrigo ... d que sonho vc saiu??

Q texto lindo

cheio d realidade e sentimento e vida e verdade


só pervebi q era tão grande dpois q terminei d ler....

Massa demais


t adicionei no msn , viu??
Podia né?

21 julho, 2006 21:04  

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